Música, circo contemporâneo, fado, folclore, livros, contos, oficinas, jogos e desporto ocupam um dos espaços históricos mais singulares de Campanhã num programa pensado para várias gerações.
Durante a maior parte do ano, a Quinta da Bonjóia é um daqueles lugares de Campanhã que permanece fora dos percursos mais óbvios de quem atravessa a cidade. No próximo domingo, a lógica muda completamente.
A 23 de agosto, o programa municipal Vizinhanças instala-se na quinta histórica durante nove horas consecutivas, das 10h00 às 19h00, e transforma os jardins num grande ponto de encontro gratuito.
Não há um único palco nem uma única linguagem. Ao longo do dia cruzam-se circo contemporâneo, música, folclore, fado, literatura, oficinas criativas, jogos tradicionais, desporto e atividades intergeracionais.
Na prática, a proposta aproxima-se de um pequeno festival de bairro para famílias, mas com uma particularidade importante: acontece num palacete setecentista e nos jardins de uma quinta histórica com vista sobre o Vale de Campanhã.
Um domingo em que os jardins deixam de ser apenas cenário
O interesse desta etapa do Vizinhanças está precisamente na forma como o programa utiliza a Quinta da Bonjóia. Em vez de colocar simplesmente um concerto num espaço verde, a programação ocupa o recinto através de propostas que acontecem em diferentes horários e convidam o público a permanecer durante várias horas.
Uma criança pode começar a manhã numa oficina de desenho ou numa iniciação ao rugby. Mais tarde, uma família pode assistir a uma hora do conto acompanhada por violinos, experimentar técnicas aéreas de circo ou participar numa oficina de zines.
Ao mesmo tempo, os jogos tradicionais prolongam-se ao longo do dia e o projeto Pedalar sem Idade volta a criar uma ligação específica ao público sénior.
Esta combinação ajuda a explicar uma das ideias centrais do Vizinhanças: a cultura não aparece separada da vida do bairro. Mistura-se com famílias, associações, crianças, seniores e agentes culturais do território.
“Cantar Abril” fecha o programa com música, poesia e memória
O último grande momento do dia está marcado para as 18h00.
Num formato intimista, o concerto revisita o cancioneiro ligado à Revolução de Abril, cruzando música, poesia e reflexão sobre os direitos conquistados com o 25 de Abril.
A escolha do repertório encaixa num programa em que a palavra assume igualmente um papel central, através de histórias, leituras, livros e diferentes formas de transmissão oral.
Programa do Vizinhanças na Quinta da Bonjóia
A programação começa às 10h00 e vai crescendo ao longo da tarde até ao concerto final. Há atividades simultâneas em vários períodos, por isso é possível construir diferentes percursos consoante a idade e os interesses.
Sessão promovida pelo projeto Cercar-te no Lagarteiro E9G.
Atividade criativa dinamizada pela APARCULT — Associação Portuguesa das Artes e da Cultura.
Uma sessão de histórias acompanhada por dois violinos, proposta pela APARCULT.
Uma proposta dedicada à criação de pequenas publicações independentes.
O Rancho Folclórico de Campanhã encontra-se com o Grupo de Romarias da Casa do Povo de Água de Pena, de Machico.
Passeios pelo recinto especialmente pensados para aproximar visitantes mais velhos da experiência do evento.
Workshop orientado pela Ekun Circo Social, que leva as artes circenses aos jardins da Quinta da Bonjóia.
Leitura encenada integrada em “Fábulas em Papel”, apresentada pela Novo Acto – Associação de Artes Performativas.
A APARCULT junta-se à Let’s Swap para uma sessão dedicada à circulação e troca de livros.
Sessão dos Contos para Todos, também assegurada pela Novo Acto.
Uma oportunidade para experimentar técnicas manuais ligadas ao objeto-livro.
Momento musical promovido pela APARCULT.
Música, poesia e memória encerram a programação deste domingo.
E há coisas a acontecer mesmo quando não existe um horário para seguir
A Associação Social de Silveirinhos volta a levar ao Vizinhanças dezenas de jogos tradicionais.
O recinto contará com uma banca dedicada a autores e editoras independentes portuguesas, com particular atenção a autores do Porto.
As atividades foram desenhadas para permitir a presença simultânea de crianças, adultos e visitantes seniores.
Circo contemporâneo num jardim histórico de Campanhã
Entre todas as atividades, o workshop de técnicas aéreas é uma das propostas que melhor representa o espírito do Vizinhanças.
A Ekun Circo Social ocupa o espaço entre as 15h00 e as 17h00, levando uma prática habitualmente associada a salas e estruturas especializadas para dentro de um programa comunitário ao ar livre.
O objetivo não é apenas assistir. É criar contacto direto com uma linguagem artística que continua a ganhar espaço na programação contemporânea portuguesa e torná-la acessível a públicos que talvez nunca tenham experimentado uma atividade deste género.
Dos violinos aos zines: os livros também ocupam a quinta
A componente dedicada à palavra é particularmente forte nesta etapa.
Há uma hora do conto acompanhada por dois violinos, duas sessões de leitura e narração, uma oficina de zines, uma oficina de encadernação artesanal, um mercado de troca de livros e uma banca dedicada à edição independente.
São propostas diferentes, mas todas partem da mesma ideia: fazer da literatura algo que não acontece apenas dentro de uma biblioteca ou de uma livraria.
Aqui, os livros circulam entre os jardins, podem ser trocados, construídos, encadernados, ouvidos e transformados em pequenos objetos editoriais.
Campanhã encontra a Madeira às 14h30
Um dos momentos mais curiosos do programa acontece às 14h30.
O Rancho Folclórico de Campanhã recebe o Grupo de Romarias da Casa do Povo de Água de Pena, de Machico, na Madeira.
O encontro coloca lado a lado tradições de duas regiões distintas, através das danças, cantares e práticas populares que continuam a ser transmitidas pelas respetivas comunidades.
Num evento pensado a partir da identidade dos territórios, esta ligação entre Campanhã e a Madeira ganha um significado que vai além de uma simples atuação de folclore.
A Quinta da Bonjóia também merece a visita
Mesmo sem programação cultural, a Quinta da Bonjóia já justificaria alguma curiosidade.
A propriedade tem raízes históricas antigas e foi adquirida, no século XVIII, por D. Lourenço Amorim da Gama Lobo. O palacete que hoje domina a quinta foi construído em 1759 e a sua autoria é tradicionalmente atribuída a Nicolau Nasoni.
O projeto ficou incompleto, já que o corpo nascente previsto para o edifício nunca chegou a ser construído. O conjunto desenvolve-se entre jardins formais e diferentes patamares voltados para o Vale de Campanhã e o Douro.
A Câmara Municipal do Porto adquiriu a quinta em 1995. O conjunto da Casa e Quinta de Bonjóia encontra-se classificado como Monumento de Interesse Público desde 2012.
É precisamente esta combinação entre património, jardim e vida comunitária que torna o espaço especialmente adequado ao Vizinhanças.
Vizinhanças atravessa as sete freguesias da cidade
A passagem por Campanhã não acontece isoladamente. A edição de 2026 do Vizinhanças foi desenhada como uma viagem por sete freguesias e uniões de freguesias do Porto, ocupando um espaço diferente em cada domingo entre 19 de julho e 30 de agosto.
A edição começou no Jardim de Arca d’Água, passou pelo Parque das Águas, Casa da Prelada, Praça de Liège e Praça do Marquês.
Depois da Quinta da Bonjóia, a última paragem está marcada para 30 de agosto, no Parque da Pasteleira.
Cada encontro procura relacionar a programação com o território que o recebe e envolver associações e agentes locais. Essa dimensão ajuda a diferenciar o Vizinhanças de uma agenda de espetáculos simplesmente replicada em diferentes pontos da cidade.
Vizinhanças na Quinta da Bonjóia: informações práticas
Perguntas frequentes
Realiza-se no domingo, 23 de agosto de 2026, entre as 10h00 e as 19h00.
Sim. Todo o programa do Vizinhanças tem acesso livre e gratuito.
Sim. O programa inclui contos, oficinas, jogos, circo e outras propostas pensadas para diferentes idades e para participação em família.
Sim. A Ekun Circo Social dinamiza um workshop de técnicas aéreas de circo contemporâneo entre as 15h00 e as 17h00.
O concerto de fado promovido pela APARCULT está marcado para as 17h00.
Às 18h00 realiza-se “Cantar Abril: e depois de Abril”, um espetáculo que cruza música, poesia e memória do 25 de Abril.
A Quinta da Bonjóia fica na Rua de Bonjóia, n.º 185, na freguesia de Campanhã, no Porto.
Porque vale a pena ir
Há programas que funcionam sobretudo pelo nome que aparece no cartaz. Este funciona de outra maneira.
O interesse do Vizinhanças na Quinta da Bonjóia está na possibilidade de passar por ali sem um plano rígido e encontrar coisas diferentes a acontecer ao longo do dia: uma história acompanhada por violinos, um ensaio de circo, um livro para trocar, um rancho de Campanhã a receber um grupo da Madeira, uma oficina de encadernação ou um concerto de fado.
Tudo isto acontece num jardim histórico, à volta de um palacete do século XVIII, com entrada gratuita durante nove horas.
Num Porto onde grande parte da programação cultural se concentra naturalmente no centro, o Vizinhanças faz precisamente o movimento contrário: leva a programação até aos territórios e transforma os lugares da cidade em protagonistas.
No domingo, esse lugar chama-se Quinta da Bonjóia.