Uma das construções civis medievais mais antigas do Porto foi reabilitada para acolher um laboratório onde o cinema volta a ser película, química, luz e experimentação.
No meio da malha apertada do Barredo, a poucos passos da Ribeira, um edifício que atravessou cerca de oito séculos prepara-se para entrar numa fase completamente diferente da sua história. A Torre da Rua de Baixo foi reabilitada para acolher o Laboratório de Cinema da Torre, um projeto dedicado sobretudo às formas analógicas de fazer cinema.
É uma combinação pouco habitual: uma construção medieval, que deverá remontar ao século XIII, transforma-se num espaço destinado à criação cinematográfica contemporânea, onde formatos como Super-8, 16 mm e 35 mm assumem um papel central.
A intervenção física na torre representa a concretização de um projeto que começou a ser preparado há vários anos e que pretende criar no Porto um lugar permanente para experimentação, produção, formação e investigação em cinema analógico.
Da arquitetura medieval à revelação de película
A reabilitação dota a Torre da Rua de Baixo de melhores condições de conforto e habitabilidade e das infraestruturas técnicas necessárias para a nova utilização cultural. A informação mais recente aponta para um investimento municipal de cerca de 375 mil euros.
Uma das construções medievais mais antigas do Porto
A nova função cultural ganha ainda mais interesse quando se olha para o edifício escolhido para a receber.
Também conhecida como Torre do Barredo, a Torre da Rua de Baixo é considerada um dos exemplares mais antigos da arquitetura civil medieval que sobreviveram no Porto.
O edifício apresenta cinco pisos e fachadas voltadas para duas artérias da zona do Barredo. Elementos arquitetónicos antigos, como a configuração de alguns vãos e do portal, permitem situar a origem da construção no século XIII.
Ao longo dos séculos, a torre sofreu naturalmente alterações. Portas, janelas e outros elementos foram modificados em épocas posteriores, mas a estrutura continua a ser um testemunho raro da arquitetura civil do Porto medieval.
Mas o que é exatamente um laboratório de cinema analógico?
O conceito é bastante diferente de uma sala de cinema convencional. O objetivo não é apenas projetar filmes para uma plateia.
Um laboratório deste género permite trabalhar diretamente sobre a própria película cinematográfica: filmar, revelar, manipular, experimentar, conservar, projetar e explorar tecnicamente materiais que antecedem o domínio atual das câmaras e projeções digitais.
O Laboratório de Cinema da Torre foi pensado precisamente como uma infraestrutura onde artistas, realizadores, técnicos, investigadores, estudantes e curiosos possam ter contacto com estes processos.
Formato compacto de película associado ao cinema doméstico, experimental e à criação independente.
Um dos formatos historicamente mais importantes para documentário, cinema experimental e produção independente.
Formato intimamente ligado à história da produção e exibição cinematográfica profissional.
Não é um museu de tecnologia antiga. A filosofia do projeto passa precisamente por manter estes formatos vivos enquanto ferramentas contemporâneas de criação artística.
Produzir, experimentar, aprender e revelar filmes
Desde a sua conceção, o Laboratório da Torre foi apresentado como um espaço cooperativo e aberto ao público, procurando responder a diferentes níveis de experiência.
Ou seja, não se destina exclusivamente a profissionais da indústria cinematográfica.
Produção cinematográfica
Apoio à realização e desenvolvimento de trabalhos que utilizem película e processos analógicos.
Experimentação
Um espaço para explorar técnicas, materiais, revelação e diferentes possibilidades da imagem cinematográfica.
Formação
Workshops e programas dedicados ao desenvolvimento de conhecimentos técnicos ligados ao cinema analógico.
Residências artísticas
O projeto prevê acolher criadores e desenvolver intercâmbios de práticas e conhecimento.
Laboratório aberto
O modelo inicialmente definido prevê períodos destinados à utilização do laboratório pelo público.
Conservação e pensamento
O cinema analógico é também tratado como território de investigação, conservação, discussão crítica e produção de conhecimento.
A cooperativa Laia está na origem do projeto
O Laboratório de Cinema da Torre é desenvolvido em modelo cooperativo e está ligado à Laia, cooperativa cultural dedicada à produção cinematográfica, artística e à reflexão crítica.
A estrutura foi fundada em 2019 por Laetitia Morais, Mónica Baptista e Sofia Arriscado, nomes ligados ao cinema e às artes visuais.
Quando o projeto da Torre foi apresentado publicamente, a intenção era que a cooperativa assegurasse diferentes vertentes da atividade, incluindo produção e realização de filmes, mostras, formação, residências artísticas e acesso a equipamentos.
A história começou muito antes da conclusão das obras
A instalação na torre foi formalmente preparada desde 2021
Em julho de 2021, o Executivo municipal aprovou a cedência temporária do imóvel destinado à implementação do Laboratório de Cinema Experimental da Torre.
Em outubro desse mesmo ano, o projeto foi apresentado publicamente como um futuro laboratório de cinema analógico aberto à comunidade.
A atividade artística e formativa do Laboratório não ficou, entretanto, parada à espera da conclusão da reabilitação da sua casa definitiva.
O projeto já levou cinema experimental ao Batalha
A ligação ao Batalha Centro de Cinema é uma das componentes estruturais do projeto.
Desde os primeiros documentos municipais ficou prevista uma articulação através de programação e formação comuns, permitindo criar uma ponte entre o trabalho técnico e experimental realizado no laboratório e a apresentação pública de cinema.
Essa relação já passou do papel à prática.
Em 2023, por exemplo, o programa europeu SPECTRAL levou ao Batalha e ao Laboratório da Torre encontros dedicados à partilha de conhecimento, investigação sobre dispositivos analógicos, filmes e performances de cinema expandido.
Uma nova utilização sem apagar a torre medieval
Transformar um edifício com este valor histórico num espaço técnico destinado ao cinema coloca um desafio muito diferente da adaptação de um imóvel contemporâneo.
A intervenção teve de articular as novas necessidades de funcionamento com as características arquitetónicas e patrimoniais existentes.
A Domus Social acompanhou o processo desde o desenvolvimento do projeto até à gestão da empreitada, tendo a intervenção melhorado as condições de conforto e habitabilidade e introduzido as infraestruturas e valências técnicas necessárias à utilização prevista.
O resultado é particularmente simbólico: a conservação de um testemunho da cidade medieval não passa por congelá-lo no tempo, mas por encontrar uma utilização contemporânea compatível com o edifício.
Porque é que o projeto pode ser importante para o cinema no Porto?
A digitalização transformou quase toda a cadeia cinematográfica, da captação à projeção. Isso tornou o acesso ao cinema mais simples, mas também reduziu drasticamente os lugares onde é possível aprender e trabalhar diretamente com película.
É precisamente nesse espaço que um laboratório especializado pode assumir importância.
- Mantém conhecimentos técnicos associados à película.
- Permite formação em Super-8, 16 mm e 35 mm.
- Dá aos artistas acesso a processos de revelação e experimentação.
- Pode receber realizadores e artistas através de residências.
- Cria condições para intercâmbios com outros laboratórios internacionais.
- Reforça a ligação entre produção, investigação, formação e exibição cinematográfica.
Da Ribeira medieval ao Porto cinematográfico
A localização acrescenta uma dimensão especial ao projeto.
A Torre da Rua de Baixo encontra-se na zona do Barredo, no coração do Centro Histórico e junto à Ribeira, numa área cuja configuração urbana conserva marcas profundas da cidade medieval.
Foi também esta zona que, a partir da década de 1970, esteve no centro das grandes operações de recuperação urbana do antigo CRUARB — Comissariado para a Renovação Urbana da Área da Ribeira/Barredo.
Décadas depois, uma das construções mais antigas desse tecido urbano recebe uma função totalmente distinta: produzir e pensar imagens em movimento.
O contraste é difícil de encontrar noutro lugar da cidade: arquitetura civil do século XIII e cinema experimental do século XXI dentro do mesmo edifício.
A torre vai estar aberta ao público?
O projeto do Laboratório foi concebido desde a origem como uma estrutura aberta ao público, prevendo diferentes formas de utilização e participação.
Contudo, há uma distinção importante entre a conclusão da reabilitação do edifício e o início do seu funcionamento regular.
Até ao momento não foi divulgado um calendário público suficientemente seguro com uma data de inauguração regular, horários de abertura ou programa inaugural completo.
Por isso, quem pretende visitar ou participar em atividades deve aguardar pela divulgação das condições específicas de funcionamento.
Laboratório de Cinema da Torre: o que já se sabe
Gosta de cinema no Porto?
Consulte a agenda de sessões, ciclos, festivais e outros eventos cinematográficos que decorrem na cidade.
Ver cinema no PortoPerguntas frequentes
É uma casa-torre medieval localizada no Barredo, junto à Ribeira. A sua construção deverá remontar ao século XIII e é considerada um dos exemplares mais antigos da arquitetura civil medieval sobrevivente nesta zona do Porto.
O edifício foi reabilitado para acolher o Laboratório de Cinema da Torre, dedicado à experimentação, produção e formação cinematográfica.
O projeto está particularmente vocacionado para Super-8, 16 mm e 35 mm.
Não. Desde a sua conceção que o projeto é apresentado como uma estrutura cooperativa aberta ao público, procurando envolver profissionais, estudantes, artistas, investigadores e pessoas interessadas em cinema.
Sim. A articulação com o Batalha através de programação e atividades de formação faz parte do modelo previsto para o Laboratório.
A reabilitação foi concluída, mas ainda não foi divulgado um calendário público definitivo com data de inauguração regular, horários ou condições de visita.
A informação divulgada em agosto de 2026 aponta para um investimento municipal de cerca de 375 mil euros.
Poucos projetos explicam tão bem a possibilidade de dar uma nova vida ao património: uma torre construída há vários séculos vai deixar de ser apenas uma peça da paisagem histórica da Ribeira para se transformar num lugar onde novos filmes podem nascer.
E há aqui uma ironia particularmente feliz. Numa época em que quase todas as imagens são digitais e instantâneas, uma das construções mais antigas do Porto prepara-se para preservar precisamente a arte de filmar, manipular e revelar película.
A Agenda Cultural do Porto atualizará esta informação quando forem divulgados a abertura regular, os horários e a primeira programação pública do novo espaço.