“Piano Garden”, de Annea Lockwood, coloca um piano vertical parcialmente enterrado no Parque de Serralves. Chuva, vegetação, insetos e passagem do tempo não são problemas a evitar: fazem parte da própria instalação.

Quem atravessar o Parque de Serralves durante este mês de agosto poderá encontrar uma imagem pouco habitual: um piano vertical parcialmente enterrado no solo, rodeado pela paisagem e deliberadamente exposto às condições naturais.
Não se trata de um instrumento abandonado nem de uma peça que esteja à espera de ser restaurada. É “Piano Garden”, uma obra histórica da compositora e artista sonora Annea Lockwood, criada originalmente entre 1969 e 1970 e agora apresentada no Porto pela Fundação de Serralves em colaboração com o Porto Pianofest.
A obra foi inaugurada a 9 de agosto, durante a 11.ª edição do festival, e integra a programação do Parque de Serralves entre 10 e 31 de agosto de 2026.
Instalação histórica de Annea Lockwood.
Porto.
Apresentação em 2026.
Uma das obras centrais de “Piano Transplants”.
O piano não será protegido da chuva nem da vegetação
Uma das características que tornam “Piano Garden” particularmente invulgar está nas próprias instruções deixadas pela artista.
A obra prevê que um piano vertical seja colocado de lado numa vala inclinada, ficando parcialmente enterrado. Em redor, a vegetação deve poder crescer e desenvolver-se livremente.
O instrumento não é protegido das condições meteorológicas. Isso significa que chuva, humidade, sol, plantas, insetos e animais podem interferir progressivamente com a madeira, as cordas, as teclas e a estrutura do piano.
A obra não procura manter o piano exatamente como está hoje. A transformação progressiva do instrumento é uma componente essencial da instalação.
O resultado é uma obra que não permanece visualmente estática. O piano que um visitante encontra agora pode apresentar alterações à medida que a natureza atua sobre os seus materiais.
O que vai acontecer ao piano?
O instrumento permanece exposto às intempéries, sem a proteção habitual de um piano.
O diálogo com a paisagem é parte central da instalação.
O piano é entregue também à ação de processos não humanos.
A transformação dos materiais não é um acidente: integra a própria composição.
Porque começou Annea Lockwood a “transplantar” pianos?
“Piano Garden” pertence à série “Piano Transplants”, iniciada por Annea Lockwood em 1968.
A artista partiu de um dos instrumentos mais simbólicos da tradição musical ocidental e retirou-o do espaço onde normalmente esperamos encontrá-lo: a sala de concertos.
Em vez de restaurar pianos considerados irrecuperáveis, Lockwood começou a colocá-los em novos ambientes e a observar aquilo em que se poderiam transformar.
Ao longo desta série, diferentes pianos foram sujeitos a processos como enterro, submersão ou outras formas de transformação. O instrumento deixa assim de ser apenas um objeto destinado a interpretar música e torna-se matéria de uma experiência sonora, visual e ambiental.
Quem é Annea Lockwood?
Nascida em Aotearoa/Nova Zelândia, em 1939, Annea Lockwood é uma das figuras mais importantes da música experimental e da arte sonora contemporânea.
A sua obra atravessa composição, instalação, performance, paisagem sonora e investigação sobre os fenómenos naturais.
Ao longo de mais de seis décadas, Lockwood explorou a forma como ouvimos rios, paisagens, objetos e fenómenos físicos, questionando as fronteiras tradicionais entre música e ambiente.
Início da série que transforma pianos em corpos sonoros.
Surge uma das obras centrais da série.
A instalação chega ao Parque de Serralves, no Porto.
“Piano Garden” já foi apresentado em contextos internacionais como a documenta 14, em Kassel, e o Monash University Museum of Art, em Melbourne.
Em Serralves, o Parque passa a fazer parte da obra
A instalação ganha uma dimensão particular ao ser apresentada no Parque de Serralves.
Em vez de existir dentro de uma galeria com temperatura, luz e humidade controladas, “Piano Garden” é colocado diretamente num ecossistema vivo.
A paisagem deixa, assim, de funcionar apenas como cenário. O solo, as plantas, o clima e os organismos que entram em contacto com o piano tornam-se participantes na transformação da obra.
Para quem visita Serralves mais do que uma vez, há ainda uma característica pouco habitual: observar como uma obra se vai alterando entre diferentes visitas.
Quando e onde ver “Piano Garden” em Serralves?
Annea Lockwood, 1969–1970.
Apresentação no Parque de Serralves.
Porto.
Valor indicado pela página oficial para residentes em Portugal.
Valor indicado para adultos não residentes em Portugal.
Segundo as condições publicadas por Serralves.
“Piano Garden” em Serralves: o que precisa de saber
Porque está um piano enterrado em Serralves?
O piano vai ser protegido da chuva?
O piano vai deteriorar-se?
Quem é Annea Lockwood?
O que são os Piano Transplants?
Até quando pode ser vista a obra?
A Fundação disponibiliza informação sobre a obra, Annea Lockwood, datas, acesso e contexto artístico da instalação.
Ver informação oficial“Piano Garden” transforma a passagem do tempo numa matéria artística. Em vez de tentar congelar o instrumento num estado perfeito, Annea Lockwood deixa que o Parque, o clima e os seus organismos intervenham sobre ele. É precisamente essa condição que torna a instalação uma das propostas mais invulgares atualmente apresentadas em Serralves.