De clubes onde o DJ era quase uma figura invisível à explosão do house, acid, rave, deep house e drum & bass: “Porto Electrónica 1985-2005” recupera vinte anos decisivos da cultura noturna da cidade.
Antes das cabines elevadas, dos cartazes construídos em torno do nome de um DJ e da ideia de que a pessoa atrás dos pratos podia ser a principal atração de uma noite, a realidade no Porto era bastante diferente.
Foi nessa cidade, ainda muito marcada pelo rock, pela pop e pelo pós-punk, que uma geração começou a introduzir nas pistas novos discos, novas técnicas e novas formas de pensar aquilo que acontecia dentro de uma discoteca.
O documentário “Porto Electrónica 1985-2005” recupera precisamente essa transformação. Durante cerca de 32 minutos, o filme atravessa duas décadas de história musical e noturna, seguindo o caminho que levou a eletrónica de uma linguagem marginal para uma parte fundamental da cultura de clubes do Porto.
Há house de Chicago, acid, rave, deep house, drum & bass e muita memória oral. Mas há sobretudo uma história sobre pessoas, lugares e noites que ajudaram a mudar a maneira como o Porto ouvia — e dançava — música.
Veja o documentário “Porto Electrónica 1985-2005”
O filme está disponível online e pode ser visto diretamente abaixo.
Um filme sobre o momento em que a cabine começou a mudar de importância
Um dos aspetos mais interessantes da história contada em “Porto Electrónica” é perceber como mudou o próprio papel do DJ.
Hoje parece natural entrar num clube sabendo quem vai estar atrás dos pratos. Nem sempre foi assim.
Pedro Tenreiro, uma das vozes do documentário, recorda uma fase em que o DJ fazia parte do funcionamento normal de um espaço noturno, sem ocupar necessariamente o centro das atenções. O filme acompanha a forma como essa relação se foi alterando.
A música deixou progressivamente de ser uma sequência de temas unidos apenas por entradas e saídas. A mistura passou a ser trabalhada como um discurso contínuo e o DJ começou a construir uma identidade musical própria.
O microfone foi perdendo importância. As transições tornaram-se tecnicamente mais cuidadas. Os géneros passaram a ser explorados com maior profundidade.
E a pessoa escondida atrás da cabine começou, pouco a pouco, a transformar-se numa razão para escolher uma determinada noite.
Porque começa em 1985 e termina em 2005?
O recorte de vinte anos permite acompanhar uma transformação praticamente completa.
Em meados dos anos 80, a música de dança eletrónica ainda coexistia com uma cultura noturna fortemente marcada pelo rock, pop, pós-punk, electro e outras linguagens que ocupavam as pistas.
Quando o documentário chega ao início do novo milénio, o cenário é muito diferente. House, techno, drum & bass, deep house e várias outras ramificações já fazem parte de uma cultura musical estabelecida.
O interesse está precisamente no que acontece entre estes dois momentos.
Não é uma história em que uma nova música aparece subitamente. É uma sucessão de pequenos avanços: um disco diferente colocado numa pista, um DJ que regressa de uma viagem, um clube disposto a experimentar, uma loja que começa a importar música, uma festa que apresenta ao público outra forma de dançar.
Antes do house dominar: o Porto já experimentava com eletrónica
A história da eletrónica portuense não começa necessariamente numa discoteca.
Já existiam experiências de composição eletrónica, electroacústica, sintetizadores, sampling e programação rítmica noutros territórios musicais da cidade.
Nos anos 80, projetos como Telectu exploravam caminhos experimentais, enquanto os Repórter Estrábico, formados em 1985, viriam a incorporar técnicas que se tornariam cada vez mais importantes na produção contemporânea, incluindo o sampling e novas formas de programação rítmica.
Esta mistura entre bandas, tecnologia, discotecas e DJs ajuda a perceber porque a cultura eletrónica do Porto não nasceu dentro de uma única cena perfeitamente delimitada.
As fronteiras eram mais porosas. Rock, pós-punk, hip hop, electro, música experimental e música de dança podiam encontrar-se no mesmo circuito, nos mesmos discos e, por vezes, nas mesmas pistas.
No Sense: quando o house de Chicago começou a chegar ao Porto
No final dos anos 80, um dos lugares frequentemente apontados como relevante nesta transformação é o No Sense.
Numa altura em que a cultura house ainda estava a formar a sua identidade internacional, o bar portuense já começava a receber discos vindos da nova cena de Chicago.
Pedro Tenreiro foi um dos DJs residentes do espaço, juntamente com Pedro Lencastre e Zé Marques Pinto.
O repertório não vivia isolado. A nova música coexistia com pós-punk, electro, hip hop e outras linguagens que estavam também a alterar aquilo que podia funcionar numa pista de dança.
Amnésia e Cais 447: quando house e acid começaram a ganhar casa própria
Se o No Sense representa uma fase de transição, outros espaços deram passos ainda mais explícitos em direção à cultura de clubes eletrónica.
Inspirada pela cultura de clubes de Ibiza, a Amnésia destacou-se no final dos anos 80 pela estética crua, com cimento e objetos industriais na decoração, e pela aposta em house e acid.
Inaugurada em dezembro de 1988, a discoteca tornou-se outro ponto relevante da mudança que aproximava a noite do Grande Porto das novas tendências internacionais da música de dança.
Mais importante do que um único clube foi a criação progressiva de uma rede de DJs, promotores, lojas, produtores, rádios e públicos que passaram a alimentar a mesma cultura.
Uma cronologia para perceber a transformação
A eletrónica começa a ocupar cada vez mais espaço na produção musical e nas pistas, ainda misturada com vários outros géneros.
A banda portuense integra uma geração que explora novas técnicas de produção, sampling e programação rítmica.
Espaços como o No Sense começam a introduzir novas sonoridades vindas da cultura house.
A região passa a contar com espaços cada vez mais ligados à nova cultura house e acid.
As transformações que já tinham ocorrido no Reino Unido, em Ibiza e noutras capitais europeias começam a encontrar uma tradução portuguesa mais evidente.
A técnica de mistura evolui, os DJs circulam entre espaços e o nome de quem toca começa a ganhar maior importância na comunicação das noites.
House, techno, drum & bass, trip hop e outras linguagens encontram públicos próprios e novos espaços de circulação.
O ponto final escolhido pelo documentário encontra uma cidade onde a eletrónica já deixou há muito de ser apenas uma novidade importada.
De funcionário invisível a nome no cartaz
Talvez nenhuma mudança resuma melhor estas duas décadas do que a evolução da figura do DJ.
Pedro Tenreiro recordou posteriormente que, em 1986, quando passava música no Lux, no Centro Comercial Dallas, a pista podia receber Beastie Boys, house, electro, go-go, Talking Heads, Clash ou Gang of Four.
Essa liberdade estilística ajuda a perceber um período anterior à atual especialização das pistas por géneros e subgéneros.
Mas também havia outra diferença: o público não encarava necessariamente o DJ como artista.
O documentário acompanha precisamente o percurso que conduziu ao cenário oposto: a técnica de mistura tornou-se parte fundamental da experiência e DJs começaram a desenvolver uma linguagem reconhecível.
A cabine deixou de estar apenas ao serviço do bar ou da discoteca. Passou a poder definir a identidade do espaço.
As memórias são contadas por quem esteve lá
“Porto Electrónica” não procura reconstruir a história exclusivamente através de datas. Grande parte da força do documentário está nos testemunhos de pessoas diretamente ligadas à transformação da noite e da produção musical.
São testemunhos pessoais, e é precisamente isso que lhes dá valor.
As histórias de uma cultura noturna raramente ficam registadas apenas em documentos oficiais. Vivem em flyers que desapareceram, cassetes, discos, fotografias, clubes que fecharam, conversas entre DJs e memórias de quem esteve numa determinada pista numa determinada noite.
O documentário transforma parte dessa memória oral num arquivo audiovisual.
A primeira grande sessão aconteceu no Passos Manuel
O cenário escolhido para apresentar o documentário no Porto não podia ser particularmente mais adequado.
A ante-estreia foi marcada para 21 de novembro de 2014, no Passos Manuel.
O filme não terminou quando apareceram os créditos.
Depois da exibição, Mute Life Department e alguns dos DJs presentes no próprio documentário prolongaram a sessão pela noite, transformando a estreia num encontro entre memória e cultura de clube.
É uma solução particularmente coerente para um filme sobre música feita para dançar: primeiro ouvir as histórias, depois voltar à pista.
Do Porto para Londres
A história não ficou limitada à cidade.
A 18 de abril de 2015, “Porto Electronica 1985-2005” teve uma apresentação no The Pillbox, em Bethnal Green, Londres, integrada numa iniciativa da Portuguese Conspiracy.
A sessão foi apresentada como a estreia britânica do documentário.
Depois da projeção, o DJ portuense João Marrucho ficou responsável pela música.
Há aqui uma pequena ironia histórica interessante. Durante anos, a cultura club portuguesa absorveu discos, tendências e referências que chegavam de cidades como Londres. Duas décadas depois, era a história da eletrónica do Porto que viajava para a capital britânica.
Alex FX criou uma banda sonora própria para o documentário
“Porto Electrónica” não vive apenas de música de arquivo e testemunhos.
A banda sonora original é assinada por Alex FX, um dos nomes entrevistados no próprio filme.
As composições foram desenvolvidas entre 2011 e 2014 e acabaram mais tarde reunidas numa edição própria em Bandcamp, lançada em 2020.
Porque este documentário é mais importante do que parece
A história da cultura de clubes tem um problema: é especialmente fácil desaparecer.
Um edifício fecha. Um flyer vai para o lixo. Uma loja de discos muda de atividade. As fotografias ficam em gavetas. Os protagonistas deixam de tocar. As pessoas que estiveram presentes esquecem datas ou nomes.
Ao contrário de uma obra arquitetónica, uma pista de dança deixa poucos vestígios físicos daquilo que aconteceu durante a noite.
É por isso que projetos como “Porto Electrónica 1985-2005” acabam por ganhar valor com o passar do tempo.
O filme não é apenas uma história sobre géneros musicais. É também um documento sobre a juventude, a noite, a sociabilidade, a tecnologia e a transformação cultural do Porto.
A história da eletrónica acabou também por entrar no museu
Anos depois da realização do filme, esta memória musical voltou a ser tratada num contexto institucional.
Em 2018, a Galeria Municipal do Porto recebeu “Musonautas, Visões & Avarias”, uma exposição dedicada a cinco décadas de criação musical na cidade.
A investigação percorreu rock, hip hop, pop, jazz, música experimental e eletrónica.
Entre os projetos associados ao universo eletrónico apareciam nomes como Mute Life Dept, PZ, Ghuna X, Mécanosphère, Telectu, Tropa Macaca e :papercutz.
Pedro Tenreiro participou também na investigação e curadoria desse levantamento.
É uma continuação interessante da mesma ideia: aquilo que durante anos existiu sobretudo em clubes, discos e memórias passou a ser encarado como parte da história cultural da cidade.
O Porto que aparece no filme já não existe da mesma maneira
É precisamente isso que torna o documentário mais interessante de rever hoje.
Não se trata apenas de sentir nostalgia por determinadas discotecas.
O filme mostra uma cidade anterior às redes sociais, às plataformas de streaming, aos algoritmos de recomendação e à possibilidade de ter praticamente toda a música do mundo disponível no telemóvel.
Descobrir música exigia outras redes.
Era preciso saber quem tinha regressado de Londres com discos, qual loja tinha recebido uma importação, que DJ conhecia determinada faixa ou qual noite estava a experimentar um som diferente.
O próprio ato de ouvir música nova era mais dependente do espaço físico.
Em muitos casos, a primeira vez que alguém escutava uma determinada faixa acontecia numa discoteca.
E essa mudança tecnológica talvez seja a melhor maneira de perceber a distância entre a cidade retratada no início do filme e a cultura musical atual.
“Porto Electrónica 1985-2005”: ficha rápida
Perguntas frequentes
É um documentário dedicado à história da música eletrónica e da cultura de clubes no Porto durante um período de vinte anos, com particular atenção à vertente dançável.
O filme foi realizado por Francisco Abrunhosa e Daniel Reifferscheid.
A duração indicada é de cerca de 32 minutos.
O percurso atravessa post-punk, electro, house, acid house, rave, deep house, drum & bass e outras ramificações da eletrónica.
A ante-estreia aconteceu a 21 de novembro de 2014, no Passos Manuel, no Porto.
Entre os participantes identificados na informação pública sobre o filme estão Pedro Tenreiro, Frank Maurell e Alex-FX, entre outros protagonistas da cena portuense.
A banda sonora original foi criada pelo produtor portuense Alex FX.
Sim. O filme encontra-se disponível no YouTube e está incorporado nesta página.
Porque vale a pena ver
É fácil contar a história da música através dos discos que sobreviveram. É muito mais difícil contar aquilo que aconteceu entre eles.
Quem colocou determinado disco pela primeira vez num clube? Quem percebeu que aquele som vindo de Chicago, Londres ou Ibiza podia funcionar numa pista do Porto? Qual foi a noite em que uma sonoridade estranha deixou de parecer estranha? E em que momento o DJ deixou de ser apenas a pessoa que punha música para passar a ser uma das razões para sair de casa?
“Porto Electrónica 1985-2005” não consegue — nem pretende — guardar todas as respostas.
Mas consegue preservar algo talvez mais valioso: as vozes de quem viveu essa transformação.
O resultado é uma pequena cápsula do tempo sobre uma cidade que descobria novas máquinas, novos discos, novas pistas e novas maneiras de passar a noite.
Para quem viveu esse período, é memória.
Para quem chegou depois, é história.
E para o Porto, é uma parte do seu património cultural que durante demasiado tempo só existiu quando as luzes se apagavam e a música começava.