Está em palácios, mercados, bancos e até numa estação de comboios. Depois de aprender a reconhecer Mercúrio, é difícil voltar a caminhar pelo centro do Porto sem começar a procurá-lo.
Há pormenores no Porto que podem passar despercebidos durante anos. Até ao dia em que alguém nos diz onde olhar.
Um deles está literalmente sobre as nossas cabeças. Em várias fachadas históricas da cidade aparece uma figura masculina ligada ao comércio, muitas vezes acompanhada por um bastão com duas serpentes, por asas ou por outros atributos clássicos.
É Mercúrio, o nome romano de Hermes, uma das figuras mais reconhecíveis da mitologia clássica e uma presença surpreendentemente recorrente na arquitetura portuense.
Não é apenas decoração. Para uma cidade cuja história foi profundamente moldada por comerciantes, mercadores, negócios, viagens e circulação de mercadorias, a escolha desta figura fazia todo o sentido.
Mercúrio pode ser visto quase como a mascote escondida do Porto comercial.
Primeiro: Hermes ou Mercúrio?
Os dois nomes estão corretos, mas pertencem a tradições diferentes.
Na mitologia grega, a figura é conhecida como Hermes. Na tradição romana passa a ser identificada como Mercúrio.
É uma divindade especialmente ligada à comunicação, às deslocações e ao comércio. Por isso, quando a figura passa para a decoração de bancos, bolsas comerciais, mercados ou residências de grandes negociantes, a mensagem não é propriamente subtil: fala de circulação, prosperidade, negociação e riqueza.
É precisamente esta associação ao comércio que ajuda a explicar a sua extraordinária adaptação à arquitetura de uma cidade como o Porto.
O bastão associado a Hermes e Mercúrio, normalmente representado com duas serpentes entrelaçadas.
Podem surgir no capacete ou nas sandálias e ajudam a identificar a ideia de rapidez e movimento.
A associação à troca, negociação e atividade mercantil é essencial para compreender a sua presença no Porto.
Movimento e circulação fazem também parte do universo simbólico associado à figura.
Porque é que Mercúrio encaixa tão bem no Porto?
Para compreender a repetição desta figura é preciso olhar para aquilo que o Porto representava quando muitos destes edifícios foram construídos.
Durante os séculos XVIII e XIX, a cidade consolidou uma forte identidade comercial e burguesa. Mercadores, companhias, banqueiros e grandes negociantes tiveram um peso decisivo na transformação urbana e social do Porto.
A arquitetura tornou-se também uma forma de comunicar estatuto. Fachadas, frontões, esculturas e decoração interior podiam dizer muito sobre quem mandara construir determinado edifício e sobre os valores que pretendia associar à sua atividade.
Neste contexto, recuperar figuras da Antiguidade clássica era especialmente eficaz. Mercúrio transmitia imediatamente uma ideia de comércio, prosperidade e dinamismo económico.
A historiadora Isabel Andrade Silva relacionou a forte presença de Mercúrio no Porto com a importante comunidade mercantil inglesa da cidade e com a permanência do gosto neoclássico. É uma interpretação histórica para explicar por que razão esta figura aparece aqui com tanta frequência, não uma causa única para todos os edifícios.
Onde encontrar Mercúrio no Porto
Palácio do Bolhão: Mercúrio no topo da casa de um grande comerciante
Talvez seja o exemplo que melhor resume toda esta história.
O Palácio do Bolhão, na Rua Formosa, foi mandado construir em 1844 por António Alves de Sousa Guimarães, futuro Conde do Bolhão e um dos comerciantes mais ricos do país.
O edifício era uma demonstração pública de poder económico. Os interiores receberam mármores, estuques, pinturas e talha, e os salões tornaram-se cenário de algumas das grandes festas da elite portuense oitocentista.
E lá em cima, sobre a fachada, surge precisamente Mercúrio.
A descrição usada pelo Open House Porto é particularmente feliz: Mercúrio está no frontão a zelar pelo sucesso “do comércio, mas também das artes”.
A frase ganhou ainda mais significado quando o antigo palácio passou a acolher a ACE Escola de Artes e o Teatro do Bolhão.
Rua Formosa, 342-346. Em vez de observar apenas as portas e janelas, afaste-se alguns metros e olhe para o topo da fachada.
Mercado do Bolhão: Mercúrio encontra Flora
A poucos metros do Palácio do Bolhão surge outro exemplo, mas aqui a escolha simbólica é ainda mais evidente.
No Mercado do Bolhão, Mercúrio surge associado a Flora.
A dupla representa duas dimensões essenciais de um mercado: o comércio e a agricultura.
As esculturas são atribuídas a Bento Cândido da Silva e fazem parte do programa artístico do edifício histórico.
É um daqueles casos em que a arquitetura praticamente explica a função do edifício sem precisar de palavras: os produtos chegam da terra e encontram no mercado o espaço de troca e venda.
Banco de Portugal: um frontão cheio de símbolos
Na zona da Praça da Liberdade, o edifício do Banco de Portugal é uma verdadeira aula de iconografia clássica.
Na composição da fachada surgem colunas, cornucópias, leões e um frontão triangular com figuras alegóricas.
Entre elas encontra-se novamente Mercúrio, aqui integrado num conjunto em que surgem também figuras associadas à agricultura, abundância e autoridade.
Num edifício bancário, a presença do deus ligado ao comércio e às transações torna-se quase inevitável.
São Bento: Mercúrio num lugar feito de viagens
A Estação de São Bento é conhecida em todo o mundo pelos seus enormes painéis de azulejo, mas vale a pena olhar também para outros elementos decorativos do edifício.
A iconografia clássica aparece através de figuras alegóricas, cornucópias e referências às estações do ano.
Mercúrio volta a integrar esse universo.
E dificilmente poderia haver cenário mais adequado: uma estação ferroviária é, por definição, um lugar de movimento, circulação, partidas, chegadas e encontros.
O deus associado aos viajantes e à comunicação encontra aqui uma leitura que vai para além do comércio.
Palácio da Bolsa: mesmo quando Mercúrio não aparece inteiro, o símbolo está lá
O Palácio da Bolsa é talvez o edifício onde a ligação entre arquitetura e comércio é mais explícita.
Começou a ser construído em 1842 para a Associação Comercial do Porto e tornou-se uma monumental afirmação do poder económico da burguesia mercantil da cidade.
Aqui é particularmente interessante procurar não apenas Mercúrio enquanto figura humana, mas o seu principal atributo: o caduceu.
No teto de uma das salas, uma composição de António Carneiro apresenta uma figura segurando precisamente o caduceu, identificado pelo próprio Palácio da Bolsa como um conhecido símbolo do comércio.
É uma boa lição para o resto do passeio: nem sempre é necessário encontrar sandálias aladas e uma figura completa. Às vezes basta encontrar o bastão.
Como reconhecer Mercúrio numa fachada
Depois de conhecer estes exemplos, a parte divertida é tentar encontrá-lo sem ajuda.
Mercúrio pode aparecer de maneiras muito diferentes consoante o período, o escultor e o edifício. Ainda assim, há alguns elementos que funcionam quase como pistas.
- Procure primeiro o caduceu É provavelmente a pista mais rápida: um bastão com duas serpentes entrelaçadas, por vezes acompanhado por asas.
- Olhe para a cabeça Algumas representações mostram Mercúrio com capacete ou pequenas asas.
- Veja os pés As sandálias aladas são outro dos atributos clássicos mais conhecidos da figura.
- Repare no contexto do edifício Bancos, mercados, bolsas comerciais e edifícios ligados a comerciantes são locais especialmente propícios a esta iconografia.
- Não procure apenas estátuas completas O caduceu pode aparecer isoladamente em tetos, frontões, relevos, portões ou elementos decorativos.
Uma curiosidade: existem dois “Mercúrios do Bolhão”
É fácil criar alguma confusão quando se fala do Mercúrio do Bolhão porque existem dois edifícios distintos, muito próximos um do outro, onde a figura está presente.
O Palácio do Bolhão é a antiga residência do Conde do Bolhão, hoje ligada ao teatro e à formação artística.
O Mercado do Bolhão é o grande mercado municipal histórico que conhecemos atualmente.
Ou seja: é perfeitamente possível encontrar duas leituras diferentes de Mercúrio numa caminhada de poucos minutos.
Mercúrio não está sozinho: o Porto está cheio de mitologia
Quando começamos a olhar para os edifícios desta forma, Mercúrio deixa de ser uma curiosidade isolada.
A arquitetura portuense dos séculos XVIII, XIX e início do XX recorre frequentemente a figuras alegóricas, deuses clássicos, animais simbólicos, cornucópias, representações das estações e personificações de conceitos como comércio, agricultura, abundância, trabalho ou poder.
Isto acontece porque uma fachada histórica não era pensada apenas para ser bonita.
Também comunicava.
O proprietário, a instituição ou o arquiteto podiam usar a decoração para transmitir a função do edifício, afirmar estatuto ou associar uma determinada atividade a valores como prosperidade, progresso e confiança.
Mercúrio tornou-se simplesmente uma das personagens mais adequadas para uma cidade mercantil.
Um passeio para começar a procurar Mercúrio no Porto
A vantagem é que vários dos exemplos mais interessantes se encontram no centro e podem ser combinados num passeio a pé.
- Palácio do Bolhão Comece na Rua Formosa e procure Mercúrio no topo da antiga residência do Conde do Bolhão.
- Mercado do Bolhão Atravesse a zona do mercado e procure a dupla Mercúrio e Flora.
- Banco de Portugal Desça em direção à Avenida dos Aliados e observe com atenção o frontão e a decoração clássica.
- Estação de São Bento Continue até São Bento e experimente olhar para o edifício para além dos famosos painéis de azulejo.
- Palácio da Bolsa Termine na zona da Ribeira, procurando o caduceu e outros símbolos do universo comercial.
O percurso tem ainda uma vantagem: passa por alguns dos pontos mais emblemáticos do centro do Porto e transforma uma caminhada turística aparentemente normal numa espécie de caça ao tesouro arquitetónica.
Perguntas frequentes
Hermes é o nome usado na tradição grega. Os romanos associaram-no a Mercúrio, que herdou muitos dos seus atributos e funções.
Porque Mercúrio é tradicionalmente associado ao comércio, à circulação e às trocas, tornando-se uma escolha natural para bancos, mercados e edifícios ligados à atividade mercantil.
O caduceu: o bastão associado a Mercúrio e Hermes, normalmente representado com duas serpentes entrelaçadas.
Sim. Mercúrio aparece associado a Flora, numa representação simbólica do comércio e da agricultura.
Também. Neste caso, Mercúrio surge no topo do palácio mandado construir por um dos grandes comerciantes portuenses do século XIX.
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Porque vale a pena olhar para cima
O mais interessante desta história talvez nem seja descobrir quantas representações de Mercúrio existem no Porto.
É perceber que muitos edifícios que atravessamos todos os dias continuam a contar histórias através de detalhes que quase nunca observamos.
No Palácio do Bolhão, Mercúrio fala-nos da riqueza de um grande comerciante oitocentista. No mercado, encontra Flora e transforma-se numa alegoria ao encontro entre agricultura e comércio. No Banco de Portugal integra um programa de poder e prosperidade. Em São Bento, dialoga com a ideia de viagem e circulação. No Palácio da Bolsa, o caduceu recorda-nos que estamos dentro de um monumento criado pela própria classe comercial portuense.
É por isso que, depois de aprender a reconhecê-lo, acontece uma coisa curiosa: o Porto parece ficar cheio de Mercúrios.
Da próxima vez que andar pela Baixa, experimente levantar os olhos das montras e dos telemóveis. Talvez encontre um deles a olhar de volta para si.