
Quem se chama José Saramago
Quem se chama José Saramago
coprodução Teatro das Beiras (PT) e Karlik danza-teatro (ES)
com direção de Cristina D. Silveira
Quem se chama José Saramago é uma meditação sobre o erro, uma visão sossegada do universo do escritor português em que se confrontam as diferentes fases da sua vida com os livros que as prepararam ou que foram sua consequência; uma vida e uma obra que acabaram por merecer-se; um labirinto em cujo centro reside a ascensão humana contínua de um homem que viveu desassossegado e escreveu para desassossegar.
Cristina D. Silveira
Nunca vou esquecer aquele homem alto, esguio, de cabelos brancos, armado de palavras, o ouro seu e nosso cavado fundo na biografia dos personagens que a vida iluminou como coisa essencial. Esse homem era José Saramago e falava a uma assembleia de planetária criação fazendo da nossa pátria idiomática o centro do mundo. Ali estava ele, face à Academia sueca e à atribuição do Nobel da literatura; não era apenas um homem, mas um país ou um mundo, ou aquela parte dele que respira a fraternidade como elemento primordial da humanidade. Falando de si e das suas circunstâncias, mergulhava no fenómeno da escrita: o sol e a água dessa arte, o pão da literatura colhido no tempo único da infância, a substância dos dias onde construiu sua temporalidade. A biografia através da sua obra, verdade válida para poetas como Pessoa (Octávio Paz) ou romancistas como Saramago. «Em certo sentido – disse ele então – poder-se-á mesmo dizer que, letra a letra, palavra a palavra, página a página, livro a livro, tenho vindo, sucessivamente, a implantar no homem que fui as personagens que criei.»
Os seus livros são assim tempo, com a história dentro, feito de muitos tempos, parábolas sobre a vida e os seus dramas, denúncia da intolerância ou da exploração, sempre um canto à liberdade e à esperança, quando o homem tem a rebeldia de dizer não e levantar a cabeça, poesia sobre o fascinante desafio de viver. Outra vez, Saramago na sua fala universal: «Usamos perversamente a razão quando humilhamos a vida, que a dignidade do ser humano é todos os dias insultada pelos poderosos do nosso mundo, que a mentira universal tomou o lugar das verdades plurais, que o homem deixou de respeitar-se a si mesmo quando perdeu o respeito que devia ao seu semelhante».
De certa forma é a essa reflexão que “Quem se chama José Saramago” nos convoca, chamando ao palco do teatro personagens e obras do autor de Memorial do Convento, na excelente co-produção do Teatro das Beiras e do Karlik danza teatro, de Cáceres. Parece que estou a ver e ouvir, de novo, o homem alto, de cabelos brancos, armado de suas palavras para inquietar o mundo. «As palavras, quando usadas, servem-nos de mãos, mão de mil dedos invisíveis» lembrou um dia Óscar Lopes. Mil dedos invisíveis, barro que lançamos no tempo, para renascermos, em busca de um mundo melhor. É isso que aprendemos quando lemos José Saramago ou para sabermos quem ele foi, como nos propõe este espetáculo.
Fernando Paulouro Neves
Covilhã, 28/09/2021
Intérpretes: Jorge Barrantes, Sílvia Morais, Elena Rocha e Tiago Moreira
Músicos: Alberto Moreno e Nuno Cirilo
Dramaturgia: Rui Díaz Correia e Cristina D. Silveira
Assistentes de direção: Ana García e Fernando Sena
Espaço sonoro: Álvaro Rodríguez Barroso
Vídeo de cena e ilustração: Alex Carot
Desenho de luz e direção técnica: David Pérez
Técnico de luz: Hâmbar de Sousa
Direção de Produção: David Pérez Hernando
Assistente de produção: Celina Gonçalves
Espaço de criação: La Nave del Duende
Vídeo promocional e fotografias: Ovelha Eléctrica
Quem se chama José Saramago