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NÃO de Hugo Flores - Inauguração no ARTES - Mota Galiza

“NÃO” de Hugo Flores – Inauguração no ARTES – Mota Galiza

“NÃO”
05.08 – 26.08

Exposição individual de Hugo Flores

Inauguração | 6ª-feira, 5 de Agosto a partir das 18:00
Local | ARTES – Mota Galiza

Eu sei que não posso, mas explica-me porquê. Se me dizes que não, eu não vou, pelo menos por agora. Mas se me dissesses porquê, nem que fosse só uma razão — mesmo que não fizesse assim tanto sentido — eu ia saber mais rápido qual é essa coisa difícil que eu posso encontrar pelo caminho. E, caso encontre essa coisa nos sítios onde posso andar, por onde me deixas caminhar livre, mas devagar! porque não devo correr, ia reconhecer os outros lugares proibidos, sozinho.

Eu não posso pisar as canelas, nem posso cair no alcatrão novo. Fico sentado a ver, a pensar porque é que não sabes pôr outras palavras à frente do não e porque é que sigo a tua viagem de olhos fechados. Tens de ir, porque tens de ir. É bom para ti, vai ser bom, vais ver coisas novas. Mas eu só queria ficar aqui para poder jogar à bola. É bom para ti, vai ser bom, porque eu digo que é. Mas eu só queria vir embora.

Lembras-te quando disse que quando era pequeno — espera, interromperam-me e esqueci-me do que ia dizer. Lembras-te quando te disse, sentado na beira do passeio, que, ainda pequeno, às vezes não era assim? Essas vezes faziam as florestas somarem-se ao escuro somarem-se às cobras somarem-se aos espinhos somarem-se à certeza de não conseguir. Somarem-se aos lacraus debaixo de folhas somarem-se aos pendentes ao peito somarem-se aos erros corrigidos somarem-se às florestas somarem-se ao escuro — oh baby, it definitely comes again.

Fiquei a coser os horrores uns aos outros. Há coisas que sei exatamente de onde vêm e outras que se misturam numa pasta densa de papel. Há coisas que me lembro todos os dias, há coisas que buzinam de repente ao passar. Há chamadas de atenção como haviam chamadas de presença, são luzes ao longe. E as mesmas imagens repetem-se (repetem-se) porque as florestas somam-se ao escuro somam-se a esses bichos somam-se ao medo somam-se. Desculpa estar a ler assim.

E tu, sentada na beira do passeio, não sabes bem do que falo porque as coisas não foram iguais, mas reconheces os medos que ficam pregados de quem tem demasiado medo por nós. Ainda te lembras em gestos de hoje que carregas em memórias as verdades dos outros. Não sentes que te feriram? — como se cortasse as coisas ao meio, porque nunca pude terminar uma frase. Não vás para aí. Tenho os mesmos dedos que me seguram todos apontados a mim.

Há uma sirene de luz que me lembra os olhos arregalados — não vás para aí. São pistas de todos os frames dos movimentos que a boca faz para articular n-ã-o. Há uma sirene de luz que me lembra de procurar as lesões e a minha melhor faca guardo para congelar as histórias em personagens e ícones que se repetem (repetem-se).

Lembras-te quando percebeste pela primeira vez que crescer em torno de uma coisa parece que é nada, assim de repente? Uma anestesia é uma anestesia, mas acho bonito como podemos perceber que as nossas marés se
repisam, faz parte, habituar-nos às sirenes, tornar-nos palpáveis e chorar com as palavras.

Sabes, os medos voltam mas nunca são iguais, porque existem os minutos todos entre eles. Sabes que mais? Decidi ir sozinho à procura.

Mais informações:
@aartes.porto

Data

05 - 26 Ago 2022
Ongoing...

Hora

18:00

Localização

ARTES
Rua de Júlio Dinis 193, Edifícios Mota Galiza, Porto

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