
FANTASIE MINOR, de Marco da Silva Ferreira
Dois bailarinos ocupam o palco como se estivessem a conquistar um espaço vazio. Com toda a sua fisicalidade, assumem as suas contradições em resposta às sugestões das notas da música: atitudes de bad boy, costas curvadas, pernas bem afastadas… São corpos que não se deixam domesticar. No entanto, basta um instante para que a leveza da Fantasie em fá menor, de Schubert, se transforme num terreno de jogo para estes dois intérpretes experientes em cultura urbana e danças de rua. Acompanhando o ritmo com pequenos impulsos dos ombros ou das pernas, lançam-se também num pas de deux simultaneamente fraternal e competitivo, feito de movimentos suspensos, deslizes, piqués e pontas deliberadamente distorcidas.
Com o coreógrafo Marco da Silva Ferreira, o peso dos corpos, o peso da música e o peso dos códigos da dança clássica e da street dance tornam-se mais leves, dando origem a novas variações e inventando um novo espaço de partilha, aberto às sensibilidades. Entre tentativas frágeis e absurdos virtuosos, emerge uma outra visão da graça.
Nathalie Yokel, dezembro de 2021