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Batalha · Cineclube do Porto · Setembro–Dezembro
Mais de 70 anos depois, o Batalha volta a pôr teatro e cinema frente a frente

Shakespeare, Tennessee Williams, Dorothy Arzner, Jean Anouilh e Jean Cocteau atravessam uma nova temporada das históricas Matinés do Cineclube, antes de dezembro dar lugar a dois domingos dedicados aos clássicos de Natal.

6 setembro 20 dezembro Domingos 11h15 Batalha Centro de Cinema
It's a Wonderful Life, de Frank Capra, integrado nas Matinés do Cineclube do Batalha
“It’s a Wonderful Life”, de Frank Capra, encerra as Matinés do Cineclube a 20 de dezembro. Imagem: Batalha Centro de Cinema.
Por Miguel Aguiar · Agenda Cultural do Porto

Em 1953 e 1954, o Cineclube do Porto levou para as suas sessões uma pergunta que continua surpreendentemente atual: o que acontece quando uma peça de teatro passa para o grande ecrã?

Mais de sete décadas depois, essa discussão regressa. Entre 6 de setembro e 20 de dezembro de 2026, o Batalha Centro de Cinema recupera esse capítulo da história do cineclubismo portuense numa nova temporada das Matinés do Cineclube.

As sessões realizam-se aos domingos de manhã, às 11h15, e atravessam adaptações de William Shakespeare e Tennessee Williams, filmes realizados pelos dramaturgos Jean Anouilh e Jean Cocteau e uma obra de Dorothy Arzner inspirada na peça de George Kelly.

Quando dezembro chega, o palco dá lugar ao Natal: Luis García Berlanga e Frank Capra encerram o ano com dois dos títulos mais associados à época festiva.

7 sessões programadas
11h15 horário das matinés
1953 origem do programa recuperado
5€ preço-base da sessão
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Não é apenas um ciclo de clássicos

É precisamente a ligação histórica que torna esta programação diferente de uma simples sequência de grandes filmes antigos.

Nos anos 50, o Cineclube do Porto procurava discutir a relação entre duas artes que partilhavam atores, textos, cenários e personagens, mas que não funcionavam necessariamente da mesma maneira.

O debate era simples na formulação e complexo na resposta: cinema é apenas teatro filmado?

A posição defendida pela programação histórica era precisamente a contrária. Uma adaptação cinematográfica não deveria limitar-se a colocar uma câmara diante do palco: o cinema tinha linguagem, montagem, espaço, tempo e possibilidades visuais próprias.

O programa apresentado pelo Cineclube entre 1953 e 1954 incluiu adaptações de autores como Shakespeare e Tennessee Williams, ao mesmo tempo que olhava para dramaturgos que passaram para trás da câmara.

É essa reflexão que o Batalha recupera agora, não através de uma reconstrução arqueológica exata, mas colocando novamente essas questões diante do público contemporâneo.

Programa completo das Matinés do Cineclube

6 setembro · 11h15 Craig’s Wife Dorothy Arzner · 1936

A temporada abre com a adaptação da peça de George Kelly realizada por Dorothy Arzner, uma das poucas mulheres que conseguiu manter uma carreira continuada como realizadora no sistema de estúdios de Hollywood durante as décadas de 1930 e 1940.

20 setembro · 11h15 A Streetcar Named Desire Elia Kazan

A peça de Tennessee Williams passa para o grande ecrã num dos exemplos mais célebres do encontro entre dramaturgia norte-americana, interpretação e linguagem cinematográfica.

4 outubro · 11h15 Othello Orson Welles

Shakespeare entra diretamente no centro da discussão. Orson Welles transforma a tragédia teatral através da composição visual, montagem, arquitetura e possibilidades específicas do cinema.

18 outubro · 11h15 Le voyageur sans bagage Jean Anouilh · 1944

Primeira realização cinematográfica de Jean Anouilh, o filme adapta a sua própria peça sobre um homem que perdeu a memória durante a Primeira Guerra Mundial e se vê confrontado com uma identidade passada que talvez não queira recuperar.

15 novembro · 11h15 Les parents terribles Jean Cocteau

Com Jean Cocteau, a fronteira torna-se ainda mais direta: um dramaturgo transporta para o cinema um universo construído originalmente para o palco, explorando aquilo que muda quando a câmara entra dentro do espaço dramático.

6 dezembro · 11h15 Hoodoo McFiggin’s Christmas + Plácido Sessão especial de Natal

A programação abandona temporariamente o eixo teatro-cinema para entrar na quadra natalícia, com uma sessão que culmina em Plácido, de Luis García Berlanga.

20 dezembro · 11h15 It’s a Wonderful Life Frank Capra

O ano fecha com um dos filmes mais associados ao Natal, numa oportunidade para voltar a ver o clássico de Frank Capra em sala de cinema.

Dorothy Arzner abre a temporada

A primeira sessão merece atenção especial.

Craig’s Wife, de Dorothy Arzner, é inspirado na peça homónima do dramaturgo George Kelly e coloca imediatamente sobre a mesa o problema central desta temporada: como transformar material concebido para teatro numa obra verdadeiramente cinematográfica?

A escolha de Arzner acrescenta outra camada histórica.

Num sistema de Hollywood esmagadoramente dominado por realizadores homens, Arzner conseguiu construir uma carreira longa atrás da câmara durante as décadas de 1920, 30 e 40.

O filme abre as Matinés no domingo, 6 de setembro, às 11h15.

Tennessee Williams chega duas semanas depois

A 20 de setembro, a matiné coloca um dos grandes textos do teatro norte-americano do século XX no centro do ecrã.

A Streetcar Named Desire, realizado por Elia Kazan, parte da peça de Tennessee Williams e tornou-se ele próprio uma referência da história do cinema.

É talvez um dos exemplos mais evidentes da questão que o Cineclube discutia já nos anos 50: quando uma história muda de meio, o que permanece e o que precisa de ser reinventado?

Shakespeare visto por Orson Welles

Em outubro, a conversa viaja vários séculos para trás na história do teatro, mas continua completamente ligada à linguagem cinematográfica.

A 4 de outubro, o Batalha exibe Othello, de Orson Welles.

Welles é particularmente adequado para este programa: a sua relação simultânea com teatro, rádio e cinema transformou-o numa figura fundamental para pensar como uma mesma matéria dramática pode mudar radicalmente quando muda de meio.

E quando o próprio dramaturgo pega na câmara?

18 outubro Jean Anouilh

Em Le voyageur sans bagage, Anouilh realiza a adaptação cinematográfica da sua própria peça, seguindo um homem amnésico que tenta perceber quem era antes da guerra.

15 novembro Jean Cocteau

Les parents terribles leva para o cinema um universo teatral do próprio Cocteau e torna particularmente visível o confronto entre espaço cénico e enquadramento.

Questão central Adaptar ou reinventar?

As duas sessões permitem observar algo diferente de uma adaptação convencional: o próprio autor teatral decide como a sua obra deve ganhar outra vida no ecrã.

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Em dezembro, as matinés entram oficialmente no Natal

Depois de cinco sessões concentradas na relação entre palco e ecrã, o programa muda de tom.

6 e 20 dezembro Berlanga e Frank Capra fecham o ano

A quadra natalícia é assinalada através de duas abordagens muito diferentes: a sátira de Luis García Berlanga em “Plácido” e o humanismo de Frank Capra em “It’s a Wonderful Life”.

A primeira sessão acontece em 6 de dezembro, com Hoodoo McFiggin’s Christmas e Plácido.

Duas semanas depois, a 20 de dezembro, a última matiné do ano entrega o grande ecrã a It’s a Wonderful Life, um dos clássicos natalícios mais duradouros do cinema norte-americano.

Uma ligação entre o Cineclube e o Batalha que vem dos anos 40

A existência destas matinés no Batalha não resulta apenas de uma parceria contemporânea.

O atual Cineclube do Porto nasceu em 1945, então com o nome Clube Português de Cinematografia, e tornou-se uma instituição fundamental para a cultura cinematográfica da cidade.

A primeira sessão do Cineclube no Batalha aconteceu em novembro de 1947.

1945

Fundação do Clube Português de Cinematografia, que daria origem ao Cineclube do Porto.

1947

Primeira sessão do Cineclube realizada no Cinema Batalha.

2023

As Matinés regressam ao renovado Batalha Centro de Cinema.

Desde janeiro de 2023, a parceria voltou a colocar as matinés de domingo no centro da programação, recuperando episódios, ciclos e debates da história do mais antigo cineclube português ainda em atividade.

O próprio Batalha faz parte desta história

Há ainda uma razão pela qual estas sessões ganham outro significado precisamente aqui.

A história da exibição cinematográfica na Praça da Batalha antecede o próprio edifício que hoje conhecemos.

O Novo Salão High-Life instalou-se na praça em 1908. Décadas depois, o edifício seria demolido para dar lugar ao novo Cinema Batalha, projetado pelo arquiteto Artur Andrade.

O complexo ficou marcado pela sua arquitetura moderna e por obras de arte de nomes como Júlio Pomar e Américo Braga, que acabariam também por enfrentar a censura do Estado Novo.

Ver hoje no Batalha filmes que um cineclube discutia durante a ditadura acrescenta, por isso, uma dimensão que vai muito além da nostalgia cinematográfica.

Quanto custam os bilhetes?

As Matinés integram a programação regular de cinema do Batalha. O preço-base indicado atualmente pela bilheteira para uma Sessão Batalha é de 5€.

Há descontos de 50% aplicáveis, nas condições previstas pelo Batalha, a estudantes, maiores de 65 anos, pessoas em situação de desemprego, titulares do Cartão Porto. e algumas parcerias institucionais.

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Matinés do Cineclube 2026: informações práticas

Datas 6 setembro–20 dezembro
Horário 11h15
Dia Domingos selecionados
Preço-base 5€
Local Batalha Centro de Cinema
Morada Praça da Batalha, 47
Cidade Porto
Organização Batalha + Cineclube do Porto
Consultar programa oficial Bilheteira do Batalha

Como chegar ao Batalha

O Batalha Centro de Cinema fica na Praça da Batalha, 47, em pleno centro do Porto.

A estação de São Bento fica a cerca de cinco minutos a pé e permite chegar através da Linha D do Metro ou de comboio.

A estação do Bolhão, servida pelas linhas A, B, C, E e F, fica a aproximadamente sete minutos a pé.

Também existem várias linhas de autocarro com paragem na Batalha.

Perguntas frequentes

Quando começam as novas Matinés do Cineclube?

A primeira sessão está marcada para domingo, 6 de setembro de 2026, às 11h15.

Qual é o primeiro filme?

“Craig’s Wife”, de Dorothy Arzner, abre a temporada.

Há algum filme baseado em Tennessee Williams?

Sim. “A Streetcar Named Desire”, de Elia Kazan, é exibido a 20 de setembro.

Há Shakespeare no programa?

Sim. “Othello”, de Orson Welles, é exibido a 4 de outubro, às 11h15.

Que filmes passam em dezembro?

A 6 de dezembro acontece a sessão “Hoodoo McFiggin’s Christmas + Plácido”. A 20 de dezembro é exibido “It’s a Wonderful Life”, de Frank Capra.

Quanto custa um bilhete?

O preço-base atualmente indicado pelo Batalha para uma sessão regular é de 5€, existindo descontos para vários públicos.

Onde fica o Batalha Centro de Cinema?

Na Praça da Batalha, n.º 47, no centro do Porto.

Até quando decorrem as Matinés?

A programação desta temporada termina a 20 de dezembro de 2026.

Porque vale a pena ir

O principal argumento não é simplesmente a oportunidade de voltar a ver grandes filmes.

É poder fazê-lo dentro de uma conversa que começou no Porto há mais de sete décadas.

Em 1953 e 1954, o Cineclube perguntava aos espectadores onde terminava o teatro e começava o cinema.

Em 2026, Craig’s Wife, A Streetcar Named Desire, Othello, Le voyageur sans bagage e Les parents terribles permitem voltar à mesma questão com mais de 70 anos de história cinematográfica pelo meio.

E depois vem dezembro. Berlanga e Frank Capra trocam a discussão sobre o palco por duas manhãs de cinema de Natal.

Tudo isto acontece num lugar que também guarda parte essencial da memória cinematográfica da cidade.

Talvez seja essa a melhor definição das Matinés: o passado do cinema do Porto regressa ao grande ecrã, mas não para ficar parado nele.

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